O interessante sobre o assunto sustentabilidade é que, por ser amplo e ainda pouco conhecido, podemos relacioná-lo com quase tudo, inclusive com os momentos de crise que eventualmente passamos.
Meus amigos mais céticos me dizem que em tempos críticos, a sustentabilidade é um assunto morto nas empresas. A sobrevivência vira a ordem do dia - Grande ponto de interrogação se faz na minha cabeça: A sustentabilidade não trata, intrinsecamente, sobre a sobrevivência? No longo prazo? Sim. Mas percebi que esta conexão entre os aspectos da sustentabilidade empresarial – muito ligada a questões de proteção ambiental e também de investimentos social – e como enfrentar uma crise ainda não está clara em nossas mentes.
Pois bem, para entendermos como uma gestão mais sustentável pode colaborar com os empresários, homens e mulheres de negócio, a enfrentar a crise com menos traumas, escolhi me inspirar no trabalho de Elisabet Sahtouris. Bióloga, PhD e estudiosa de teoria da evolução. Elisabet Sahtouris mostra um processo de evolução não baseado no sucesso dos mais fortes, mas sim, numa dança sucessiva de invenções tecnológicas e cooperação.
A análise começa com um dos primeiros habitantes da terra, as bactérias moneras, que viviam num oceano cheio de suprimentos para sua alimentação, com o que construíam suas enzimas e proteínas. Estes indivíduos unicelulares seguiam se multiplicando, usando os recursos disponíveis para fabricação de seu alimento e jogando no ambiente os resíduos que sobravam deste processo. Estas bactérias eram fermentadoras. Com o passar dos anos (bilhões, creio eu) o suprimento de alimentos baixou de nível e estes pequenos seres vivos estavam à beira de um colapso. Começaram, então, a perceber a possibilidade de usar a energia do sol para quebrar moléculas e buscar seus alimentos de outras fontes abundantes no planeta, mas com outro processo. Assim surgiram as “bluegreens” bactérias que aprenderam a fotossíntese e num processo de cooperação com as moneras, criaram um ambiente propício à sua sobrevivência.
Não tão tarde descobriram, as moneras e as bluegreens, que o subprodutos de ambas as tecnologias – a fermentação e a fotossíntese – era um gás muito venenoso – o oxigênio. Assim, conforme iam se multiplicando, o nível de oxigênio ia crescendo, causando a morte de milhares de indivíduos e trazendo, novamente, a possibilidade de auto–extermínio. A sobrevivência, então, vem de outro salto tecnológico. Algumas bactérias passaram a se diferenciar usando os resíduos dos processos de suas companheiras como matéria-prima para sua alimentação. Assim, algumas bactérias começaram a aprender um novo processo, usando o “veneno” oxigênio e produzindo gás carbônico.
O ciclo estava concluído. Algumas bactérias poderiam usar o oxigênio para produzir o que outras precisariam como alimento, o dióxido de carbono, usado na fotossíntese. O que se vê a partir daí é um crescente número de diferenciações, mas num trabalho complementar e cooperativo que pôde assegurar a sobrevivência das bactérias que fermentam, das que fazem fotossíntese e das que respiram. Se usarmos um microscópio para analisarmos a superfície da pia da cozinha, por exemplo, vamos ver verdadeiras cidades silenciosas e harmônicas, com bactérias fermentadoras, as que fazem fotossíntese e as que respiram juntamente trabalhando, numa verdadeira dança na qual elas se complementam, cooperam entre si e mantém sua diferenciação. Cada uma desempenhando sua tarefa.
Agora, como tudo isto se aplica à sustentabilidade empresarial? Ora, a época de crise se caracteriza por escassez de recursos. A história da evolução das bactérias nos mostra pelo menos duas saídas: salto tecnológico e cooperação.
Tecnologia - As bactérias usaram a crise de recursos para desenvolver novos usos para o lixo e desenvolver novos processos tecnológicos de absorção de alimentos. Descobriram novas fontes de energia. Será que talvez uma saída de médio prazo para a crise que estamos vivendo não seria por um caminho análogo? Não vale a pena rever processos produtivos, desde a utilização de matérias-primas até os resíduos e descobrir se não há oportunidades escondidas aí? Será que não há novas formas mais eficientes de utilizar os recursos que a natureza nos disponibiliza? Será que o que vemos como um problema não pode ser uma solução?
Cooperação – novamente as bactérias nos ensinam que a cooperação é a melhor saída para a sobrevivência. Tivessem algumas delas resolvido simplesmente acabar com a outra e todas teriam sucumbido. Da mesma forma podemos pensar a sustentabilidade empresarial. É neste momento de crise que podemos evocar nossa criatividade na cooperação. Ao invés, por exemplo, de simplesmente mandarmos embora nossos recursos humanos que agora mais do que nunca representam custos, não seria possível chamá-los a conversar sobre o problema e tentar algo com base na cooperação? Será que ao invés de despedir um funcionário, este não se disporia a trabalhar meio período? Manter dois pelo custo de um e assim não teríamos uma família totalmente sem recurso? Seria possível sentar com fornecedores e pensar juntos qual seria uma saída boa para ambos? Qual seria o risco?
Apenas lembrando, a primeira bactéria resolveu sua primeira crise de energia desenvolvendo tecnologia solar. Depois, aprendeu a reciclar suprimentos e entendeu que esta era a melhor forma de evitar ficar sem. Finalmente, enfrentando a poluição do oxigênio, elas se juntaram diante do problema e, usando os diversos mecanismos específicos de cada uma, desenvolveram um modelo mais sofisticado e que possibilitou a manutenção da vida, a respiração.
A evolução, vista deste ângulo, significa mudança de padrões que se transformam em novos padrões. Uma evolução bem sucedida é harmônica e tem cada um de seus elementos contribuindo para o todo. Segundo Maturana e Varella a vida é um sistema autopoiéticointerações com o ambiente externo que desencadeia nele a necessidade de mudança na sua própria estrutura.
Cabe a nós aproveitarmos este momento de crise externa para nos re-criarmos como profissionais e como empresas, nos transformando, mudando nossas estruturas internas para continuarmos a existir.
